Os cientistas descobrem grande quantidade de matéria orgânica no cometa Tempel
11/09/2005
Cientistas de médio mundo apresentaram ontem os resultados da missão Deep Impact da NASA, que o passado 4 de julho despedaçou um projétil contra o cometa Tempel 1 para estudar o núcleo destes corpos celestes, testemunhas das remotas origens do sistema solar.
Os cientistas descobrem grande quantidade de matéria orgânica no cometa Tempel
Fonte Física e Sociedade
O núcleo do Tempel 1, cuja superfície está coalhada de crateras, compõe-se de partículas muito finas (entre 1 e 100 micras) e muito pouco compactas. A composição química do núcleo é similar à do vírgula (o halo do cometa) exceto num detalhe: tem uma quantidade muito maior de compostos orgânicos.
Resultados
Os resultados se publicaram ontem em três artigos da revista Science.
O primeiro analisa os dados transmitidos à Terra pelo próprio projétil -até quatro segundos antes do impacto- e pela nave que o lançou contra o cometa, ambos carregados de instrumentos científicos.
O segundo recolhe os resultados de 70 observatórios terrestres e orbitais, entre eles, o telescópio espacial Hubble, que em julho enfocaram seus instrumentos para o Tempel 1 para analisar o impacto e suas conseqüências. <
O terceiro artigo apresenta os dados da nave Rosetta, da Agência Espacial Européia (ESA), que vai de caminho para outro cometa e ativou seus instrumentos para registrar também o impacto. Ao todo colaboraram mais de 250 cientistas.
Descrição
O projétil, de 370 quilos e do tamanho de uma lava-roupa, penetrou umas dezenas de metros no núcleo do Tempel 1. O impacto lançou ao exterior uma boa quantidade de material interno do cometa, que graças a isso pôde ser analisado por vários métodos: a luz que reflete esse material dá muitas pistas sobre sua composição química. Seu grau de opacidade, a velocidade com que resulta lançado e, sobretudo, a forma em que volta a cair sobre o cometa (por gravidade) permitiram aos científicos estimar o tamanho das partículas que o formam, e também a massa do próprio Tempel 1.
Segundo esses dados, o núcleo do cometa está fato de partículas muito finas, com um diâmetro de entre 1 a 100 micras (milésimas de milímetro). E não podem estar muito compactadas, porque o cometa tem uma densidade surpreendentemente baixa, de 620 quilos por metro cúbico (o água tem uma densidade de 1.000 quilos por metro cúbico). O núcleo do cometa não se parece a uma rocha, senão a uma pelota de pó que se mantém unida por sua própria atracção gravitatória.
Dados
Os dados mais curiosos procedem da comparação dos espectros luminosos antes e depois do impacto. Como todos os cometas, que são bolas de gelo e pó, o Tempel 1 vai expulsando material quando sua órbita se acerca ao Sol. Os pesquisadores compararam essas expulsões naturais de material superficial com as causadas pelo impacto.
Antes do impacto, o material lançado consiste sobretudo em água e CO2, com pequenas quantidades de substâncias orgânicas (isto é, compostos de carbono similares aos constituintes básicos da vida). Depois do impacto se vê um grande incremento dos compostos orgânicos, que chegam a ser tão abundantes como o água.
Um bom refúgio contra o calorA luz infravermelha emitida pelo Tempel 1 permitiu aos científicos calcular com bastante precisão a temperatura da superfície de seu núcleo nos dias do impacto, quando o cometa estava a 134 milhões de quilômetros da Terra. As zonas alumiadas pelo Sol estavam a 56 graus centígrados, e as que ficavam à sombra de algum acidente topográfico não passavam de 13 sob zero.
Núcleo
O núcleo do cometa rompida sobre seu eixo (dá uma volta cada 41 horas), e por tanto as zonas de luz e de sombra variam continuamente. O fato de que, pese a isso, a temperatura se possa correlacionar tão bem com a luz e a sombra indica que o Sol só pode esquentar a capa mais superficial do cometa. Caso contrário, o calor acumulado nas capas mais profundas impediria do que as zonas sombreadas se esfriassem tão rápido.
"O interior do cometa está bem protegido do aquecimento que sofre a superfície", explica o pesquisador principal da missão Deep Impact, Michael A'Hearn, numa nota da Universidade de Maryland.
"O calor não se conduz facilmente ao interior, e o gelo e os demais materiais situados a certa profundidade podem permanecer prístinos e inalterados desde as origens do sistema solar, tal e como muitos cientistas tinham teorizado".
Segundo A'Hearn, um dos achados mais interessantes da missão é o alto conteúdo em compostos do carbono que revelou o interior do cometa. "Este fato indica que os cometas contêm uma quantidade substancial de material orgânico", escreve o líder da missão, "e que, por tanto, poderiam ter trazido esse material à Terra nos inícios da história do planeta, quando os impactos de asteróides e cometas eram muito comuns".